terça-feira, 28 de julho de 2009

Fanaa


Nota: a minha caríssima colega barbie-o já convenientemente falou um pouco sobre esta obra, no entanto não resisto a exprimir alguns pensamentos que este filme me provocou.

A produtora Yash Raj Films tem sido a casa de vários bons filmes nos 30 anos de vida, sendo disso exemplo filmes como Chandni, Dilwale Dulhania Le Jayenge e Kabhi Kabhie, aconselhando-se estarem atentos a cada novo lançamento.
O filme conseguiu ser um sucesso de bilheteira num período em que a indústria indiana parecia não conseguir criar obras que apelassem ao público, e mesmo a sua produção tem uma história que podia ser usada para a parte 2 (cruz credo…).
É fácil resumir o filme. Na primeira hora há romance, depois é acção, depois é drama, depois é tragédia. É difícil explicar o deslumbramento. Por partes…

O nível de interpretação dos protagonistas está nos píncaros. Khan faz o que costuma fazer bem, apenas de forma mais despojada, já que a personagem não é rapaz para grandes fogosidades heróicas. Engraçado foi reparar que usou alguns movimentos que me fizeram lembrar um outro filme seu quando devia ter metade da idade que tinha aqui. Está aqui acima da sua média, se considerarmos a contenção que permitiu tornar a personagem viva, assumindo que a sua média é elevada.

Mais surpreendente é Kajol, de uma expressividade encerrada nos olhos, exemplar em todas as expressões que transporta ao longo do filme, inclusive quando está em segundo plano. A complexidade que cria para uma personagem que poderia cair na banalidade em outras mãos, faz-nos lembrar que mesmo depois de afastada, ainda é das melhores e mais bonitas actrizes indianas. Zooni atravessa o filme como se fosse uma aparição encarnada, um género de realismo mágico em forma de mulher.

A história tem um equilíbrio precário entre o perfeito romance e a tragédia avassaladora que podia ter tido efeitos descosidos, não fosse o excelente trabalho de direcção de actores que concerteza existiu por parte de Kunal Kohli, num trabalho com resultados bem superiores aos seus anteriores.
Pode-se discutir a sequência de acção “a-la-007” no inicio da segunda hora, mas até essa está bem conseguida e é absorvida pela compacta ambiência do todo. De resto, o tema da independência de Kashmir apesar de essencial para a história é tratado de forma fugidia e nunca é realmente concretizado. Mais que o tema político que poderia ter sido desenvolvido, o objecto central escolhido foi a consequência específica numa paixão singular.

Os diálogos conseguem ser um pouco de tudo sem beliscar o bom gosto. São engraçados, com segundos sentidos, românticos, amargurados, e em cada um dos registos são emotivos. Excelente trabalho. Gostei particularmente do casal Kirron Kher e Rishi Kapoor, pais de Zooni e explicação para a sua força de carácter.


A música abraça-nos com uma inquietante alegria à qual não se resiste e as letras são muito boas, em particular Chanda Chamke que é puramente genial. Prasoon Joshi traduz numa dúzia de frases o universo abstracto do argumento, quando este aparentemente não possui nenhum. Qualquer um dos temas fica, desde a primeira audição, connosco o dia inteiro e depois de repetidos estamos capazes de os imaginar como se os tivéssemos perto do ouvido. As variações sobre o tema principal, composto por Jatin e Lalit Pandit, conseguem repetições de melodia que soam sempre a novo, apoiadas por orquestrações sobre instrumentos populares e diversas vozes masculinas e femininas sobrepostas.
A música de fundo está tão bem envolvida que duvido que alguém tenha dado por ela existir, tal é o fascínio que as personagens provocam, o que é um crime pois Salim-Sulaiman atinge na perfeição a árdua tarefa de só se fazer notar num segundo ou terceiro visionamento, em que então já o ouvido segue ao mesmo ritmo do olhar.

Visualmente, a cinematografia de Ravi K. Chandran resulta como se limpasse o vidro de uma janela coberta por neve, permitindo-nos vislumbrar a narrativa forma cristal clear. Repleto de imagens tão largas no enquadramento como íntimas de significado, o filme não pede mais que a entrega a si e recompensa aqueles que nos pormenores esperam o melhor e em que a última sequência musicada é tão branca pela pureza do amor de ambos como é de paisagem fria e desoladora da improbabilidade de tal ser aceite pelo mundo que os envolve. Nesse, a perfeição dos amantes é consumida pela realidade da existência, aquela que não tem lugar para aguentar tanta feliz ventura e que na sua inveja tudo invalida, em especial quando vai contra os equilíbrios da vida, quando a esta se pretende a mais ascender. Para maiores bens, advêm males maiores, e do que foi, permanecem as reminiscências dos que ficam e a danação dos que foram, apenas porque foram afastados ao chegar ao limite sensível do divino permitido a este mundo.
O dilema moral, para aquele que sempre seguiu o seu próprio caminho, e assim ente amoral, transmuta Rehan de um homem com propósito bem determinado num ser hesitante ou pelo menos num ente dividido entre o que vai decidir e a angústia de ainda não o conseguir aceitar.

A meia-hora final é cruel, tanto no desenrolar dos inevitáveis como nas figurações que escolhe para o descrever. Usa a estética fotográfica das imagens para acentuar o tom de perda final e a incapacidade para contrariar a fatalidade. Zooni perde-se na suspeição perante um desconhecido que nunca imaginaria defrontar, e para o maior dos bens ou menor dos males decide ela o seu destino, tomando para si a responsabilidade das coisas que antes estavam fora do seu controlo. Aqui, o argumento torna-se simplista, mas se talvez se possa julgar mal disso, também é aceitável que chegados a este lugar de sombras, despir a narrativa ao mais básico seja um desfecho compreensível e forma de simplificar em palavra o que é complexo em ideia.

Lembro-me que, após ver o filme fiquei sem saber se a perturbação interior que sentia era autêntica e duradoura ou um prenúncio de que mais tarde, depois de racionalizar o que tinha assistido, tal se desmoronaria por falta de conteúdo, chamemos-lhe, maior.
Nesse dia, já à espera do sono, pus-me a pensar sobre qual seria o âmago ao qual poderia sintetizar o filme. No fundo, é simplesmente uma história sobre aquilo que se quer ser ou que se pensa que seremos e o que realmente a vida nos conduz a ser. Rehan tem toda a sua vida entregue e focada como um homem sem outro objectivo para além de cumprir a vontade daquilo que o educou, mas a vida atirou-o de encontro àquilo que a maioria procura e nunca encontra. Deu-lhe um filho que não viu crescer e alguém que pode amar nem reflectir em razões para além de assim advir. O destino obrigou-o a amar quando não esperava e como nunca o quis pôde absorver. Rehan tem a redenção que buscava pela mão que o libertaria de si em vida e com o mesmo braço com que apunhalava o inimigo ameaçou a encontrada submissão a uma mulher. Escolheu partir. No seu confronto final, por entre o sofrimento do inevitável, nenhum deles atinge o provável fanaa. Um falha por não se permitir a libertação do passado, o outro porque não se aceita a negar o futuro. “Tudo não pode ser feito só!”.
Aqui deixamos um pedaço da beleza do objecto fílmico...

Fanaa - Chanda Chamke


3 comments:

bárbara disse...

Acho que fomos separados à nascença. Ontem passei o dia a cantarolar músicas deste filme e a louvá-lo como uma das obras sublimes do cinema indiano actual.

arleqvino disse...

..alas, a nossa diferença de altura (do tipo vertical) desmente tal teoria :]
beijos à familia..

Carol disse...

Acabei de assistir ao filme e ainda estou um pouco perturbada...estou triste.

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