segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Hello

Por onde devo começar? Ah sim, pelo início. O filme Hello é uma adaptação ao cinema do livro One Night @ The Call Center, do escritor Chetan Bhagat.

O filme começa com uma cena em que Salman Khan (o chamariz óbvio para levar o público às salas e que aqui desempenha o papel de um actor de sucesso) é abordado por Katrina Kaif numa sala de espera do aeroporto.
Esta propõe-lhe ouvir uma história a troco de torná-la o argumento para o seu próximo filme. O actor acede à enigmática desconhecida e assim começa a narração.

Numa noite chuvosa, num dos muitos call-centres da Índia, seis colegas de trabalho enfrentam dilemas e provações pessoais distintas.
Um deles está afastado do filho e do neto, outra tem um marido ausente e uma sogra venenosa, há um que está apaixonado por uma colega (que por seu lado está noiva), há ainda outra que se mudou para Bombaim na expectativa de fazer carreira de modelo e por fim há o motoqueiro rebelde que a ama e que não sabe demonstrá-lo da melhor maneira.

Devo começar por falar das coisas de que gostei muito no filme.

Em primeiro lugar, o ambiente de call-centre.
A Índia é um país em que o outsourcing de apoio ao cliente está implementadíssimo e essa é uma realidade que deve ser mostrada ao público.
Para quem não sabe, o outsourcing é quando uma empresa sub-contrata funcionários a outra empresa para que esta faça, por exemplo, a gestão dos seus call-centres.
Aqui em Portugal, por exemplo, quando ligamos para a companhia da TV por cabo ou dos telefones ou da internet estamos a ligar não para a empresa da qual somos clientes mas para uma outra que foi sub-contratada. A jogada é simples, em vez de a empresa-mãe contratar directamente os funcionários, paga a outra empresa para fazer o seu trabalho sujo: pagar mal, despedir pessoas às dezenas quando é preciso, etc. Nem sempre é assim, mas quase.

Pois se aqui em Portugal somos os qualificados que menos recebem na Europa, poderemos dizer que na Índia estão os qualificados mais mal pagos do mundo! E por isso muitas empresas contratam à Índia a gestão dos seus call-centres.
Normalmente estas empresas são americanas e os seus clientes são muito mal educados, não perdendo uma oportunidade para desancar no pobre indiano do outro lado da linha só porque este não fala com sotaque "americano".

Durante o filme podemos ver cenas da formação dos assistentes em que estes aprendem a falar "americano". Vemos também como estes infelizes têm sempre de trabalhar em horários nocturnos para poderem atender os seus clientes ocidentais, para quem é de dia.

Isso, aliado ao patrão bajulador que não hesita em despedir funcionários se o seu contratador assim o solicitar e que passa o filme a dizer "God bless America" fazem de Hello um bom retrato da realidade.

Gostei também do enredo que, apesar de simples, me manteve na expectativa do que iria acontecer a seguir. Que é como quem diz, ver se os heróis ficam com as miúdas, se o avô volta para o netinho e se a mulher casada dá um chuto no rabo do marido e o põe a milhas.

Todas estas personagens recebem, a dada altura, uma oportunidade de mudar as suas vidas e essa oportunidade vem sob a forma de uma chamada telefónica directamente de Deus. Pois, esta parte já não é tão credível assim.
Tal como também não fazem muito sentido as personagens de Katrina Kaif e de Salman Khan, que só aparecem no início e no fim do filme. Ao que li, no livro a personagem de Salman Khan é um escritor e a de Katrina Kaif pede-lhe que transponha a história para um livro. Assim já me parece melhor!

Como sabemos, dizem que adaptar livros ao cinema é uma tarefa difícil, no entanto em Hello o realizador Atul Agnihotri pareceu-me particularmente pouco dotado de subtileza.
A dada altura - e lamento mas não consegui captar uma imagem para aqui colocar - uma das personagens proclama, perante uma multidão de assistentes de call-centre em ovação, que "Os brancos são na sua maioria uns medrosos!"
Não é por nada, mas o racismo nunca fica bem a ninguém. Tudo bem que a Índia tem um passado colonialista péssimo e que esta nova exploração do outsourcing (aliada ao tráfico de orgãos para o Ocidente e outras coisas que tal) mais parece um Império Britânico - A Sequela.
Mas daí a falar mal de todos os brancos? Não gostei.

Mesmo assim, achei o filme engraçado e vi-o com boa disposição. Talvez venha a ler o livro.

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