terça-feira, 30 de março de 2010

Bombay


Na chamada trilogia sobre terrorismo realizada nos anos 90 pelo tamil Mani Ratnam, Bombay é o filme do meio, antecedido por Roja e seguido por Dil Se.

Filmado originalmente em Tamil e dobrado depois em Hindi e Telugu, Bombay ganhou os corações do público e da crítica graças à habilidade do realizador Mani Ratnam em ir construindo histórias de amor apelativas (e verosímeis) ao mesmo tempo que expõe aspectos fracturantes da sociedade indiana e, no caso concreto desta trilogia, apresentando o impacto que as divisões político-religiosas (e, na sua vertente mais radical, o terrorismo) têm na vida das pessoas reais.

Só para dar o contexto, em Roja uma mulher tamil luta pela libertação do seu marido, feito refém por uma milícia separatista. Em Dil Se, um jornalista indiano apaixona-se por uma bombista suicida que planeia vingar as atrocidades cometidas pelo exército contra a sua aldeia.


E em Bombay, um jovem tamil hindu com uma carreira promissora em Bombaim (Shekhar) apaixona-se pela filha de um marceneiro muçulmano (Sheila), quebrando as convenções e os preconceitos de ambas as comunidades ao casar-se com ela.

Os protagonistas de Bombay são Arvind Swamy e Manisha Koirala (intépretes de Roja e Dil Se, respectivamente), dois actores excepcionais que marcaram o cinema indiano nos anos 90 e que, surpreendentemente, decidiram afastar-se do cinema comercial e seguir outros interesses. Swamy tornou-se empresário e Koirala dedica-se ao cinema alternativo e de pendor feminista.

E agora, a sinopse.

Ao regressar de férias a casa, o adorável Shekhar tem um momento Guru Dutt (ver post sobre o filme Chaudhvin ka Chand), ao ver sob o véu de uma burca o rosto da bonita Sheila. Sentindo-se arrebatado, Shekhar corteja a rapariga até que esta vai voluntariamente ao seu encontro e aceita casar com ele.

Ambas as famílias rejeitam a união. Fazem um escândalo, ameaçam-se de morte, o previsível. Interessante é ver que até surgir a hipótese de uma ligação amorosa entre os filhos, ambas se davam bem e se respeitavam. Mas a tradição e a honra falam mais alto.

Perante a possibilidade de ser casada à força pelos pais, Sheila foge para Bombaim ao encontro de Shekhar, e casam-se de imediato.

Aguentando os olhares reprovadores iniciais dos senhorios hindus, a relação mantém-se firme e o casal tem dois filhos gémeos, a quem dão nomes hindus e muçulmanos, não preferindo uma religião em relação a outra.

No entanto, estalam em Bombaim os motins (reais) entre hindus e muçulmanos, depois de um grupo de hindus destruir a Mesquita de Babri. A violência dos confrontos faz com que os avós das crianças acorram a Bombaim e ponham de lado as divergências, vendo o resultado que estas podem ter quando ficam descontroladas.


No entanto, a família é apanhada nos motins e os pais separam-se dos filhos, criando momentos de grande angústia para todos.

Como é habitual em filmes dirigidos por Mani Ratnam, Bombay tem uma excelente fotografia e planos lindíssimos. Aqui e ali brotam cenas aparentemente simples mas fundamentalmente simbólicas como é o caso quando Sheila corre para os braços de Shekhar, abandonando a burca que fica presa a uma árvore.

Inevitavelmente o filme tem um grande pendor patriótico e uma mensagem inequívoca de tolerância e igualdade. Novamente, não é por acaso que os apaziguadores dos motins são uma matriarca muçulmana que defende uma jovem família hindu e uma hijra que defende crianças orfãs.

Para saborear um bocadinho de Bombay e escutar uma das músicas indianas mais bonitas que já ouvi, deixo aqui o vídeo de Kannalane, cantado pela maravilhosa Chitra. A versão Hindi chama-se Kehna Hi Kya.

2 comments:

Ibirá Machado disse...

É engraçado, eu me lembro de ter gostado do filme, mas hoje quase não lembro de mais nada, a não ser o tom patriótico maniratnansense e rahmaniano típicos. E lembro também das crianças perdidas no meio da destruição e do fogo, salvos então pela hijra... e Roja, que gostei menos, eu lembro mais...

barbie-o disse...

!
Eu li a tua crítica antes de escrever a minha e também fiquei com a impressão de teres gostado.

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