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sábado, 14 de agosto de 2010

Market


Números de 2008 indicam que na Índia, a cada hora que passa, ocorrem duas violações, dois raptos, quatro situações de abuso sexual, e sete incidentes de crueldade por parte de familiares ou maridos.
A cada hora.

E estes números dizem respeito apenas a mulheres. Os casos envolvendo crianças e jovens ficam de fora, e esses dados certamente também serão alarmantes.
Hoje tive um pesadelo que me fez lembrar o filme Market, de 2003. E revi-o.

Market começa com uma cena de um casal recém-casado que chega à cidade de Hyderabad, capital do estado de Andhra Pradesh.
A jovem noiva fugira de casa para casar e o marido diz-lhe que a vai levar a conhecer os pais deles. Mas antes têm de visitar uma tia.
Essa "tia" é a patroa de um bordel e o objectivo deste desvio é na verdade vender a rapariga recém-casada para a prostituição. Assim que se apercebe da situação, a rapariga grita e tenta fugir, mas é rapidamente apanhada e devolvida ao bordel.
A notícia de carne fresca espalha-se pela clientela e há vários homens que se propõem para tratar da "inauguração". E é mesmo esta a palavra que usam.

No bordel, há uma prostituta mais velha - Muskaan, interpretada por Manisha Koirala - que fica com pena da rapariga e num ataque de fúria, ataca o seu primeiro cliente. Mas Muskaan não pode salvá-la para sempre e a moça acaba mesmo por ser violada.

Muskaan decide então telefonar ao irmão da rapariga para que este a venha salvar, e assim é. Apesar da inércia inicial da polícia (sendo que um dos agentes é, ele próprio, cliente do bordel), o irmão acaba por conseguir registar queixa e resgatar a irmã.
O filme poderia acabar aqui e nós ficaríamos sossegados e quentinhos por dentro achando que tudo está bem quando acaba bem.

Mas este é só o prólogo.

O filme só começa verdadeiramente quando temos um flashback de Muskaan enquanto adolescente.

Também ela oriunda de uma família humilde de Hyderabad, os seus pais são abordados por uma casamenteira (leia-se, proxeneta) que lhes propõe casar Muskaan com um sheikh rico da Arábia Saudita, que lhe trará uma vida boa e respeitável.
Os pais aceitam e Muskaan casa-se, apenas para ser devolvida dias depois pelo sheikh, que depois de a usar (ou seja, violar e torturar dias a fio) decide deitá-la fora com um selo de mulher divorciada, o derradeiro estigma para uma família pobre que ainda tem filhas mais novas por casar.

Insiro aqui uma nota da redacção: o filme começa com a indicação de ter um enredo fictício, mas este trecho em particular é inspirado numa história real que se passou com uma jovem indiana.

Muskaan e o pai apresentam então queixa contra o sheikh, que se vem a saber ser um violador de noivas em série. Recebem uma pequena indemnização do tribunal enquanto o veredicto não é dado, mas depressa os vizinhos da família começam a acusar o pai de Muskaan de viver às custas da desgraça da filha. Envergonhado, o pai enforca-se em casa.

Divorciada e desprovida da única pessoa que a pode realmente defender - o pai -, Muskaan é alvo de mais tentativas de abusos e acaba no mesmo bordel onde o filme começou.

E é aí que durante oito anos vende o seu corpo para pagar as despesas do tribunal e da advogada que continua a defender o seu caso contra o sheikh abusador.


No entanto, a palavra de um homem continua a ser mais forte que a de uma mulher em alguns locais. E a de um rico vale sem dúvida mais do que a de um pobre. E é assim que o tribunal decide que as alegações de uma prostituta indiana contra um saudita rico são infundadas.

Mas porque nós (o público) e Muskaan exigimos um momento catártico, a justiça é feita anos depois, às mãos daquela que toda a vida foi vítima do homem abusador.
Muskaan, que entretanto consegue encontrar algum equilíbrio na sua vida pessoal, encontra casualmente o ex-marido e não perde tempo. Munida de uma burca e de um revólver, trata de dar ao criminoso o que ele merece. Agora sim, pode ter paz.

Market oferece alguns indícios sociais interessantes. Em primeiro lugar, é notório que a religião não é sinónimo de honestidade ou compaixão. Todas as personagens de Market são muçulmanas, só que umas são mais do que outras.
Numa das cenas em casa do sheikh, este, a casamenteira e até o clérigo que vai celebrar o casamento brincam e riem dizendo "De certeza que vou parar ao inferno por isto!"
O contraste entre esta gente a família de Muskaan não poderia ser maior.

Como em muitos outros filmes em Hindi, também aqui está presente o ataque à polícia corrupta e sem valores.

Mas para mim, o derradeiro lugar-comum do cinema indiano é o ciclo inevitável da mulher violada que se torna prostituta. Aliás, a minha edição em DVD de Market incluía vários outros títulos cuja história era a mesma.

Na cultura cinematográfica indiana (que é a única que eu conheço, pois nunca fui à Índia) uma mulher que não tenha um marido, um pai ou um irmão que a oriente é uma mulher desgraçada, é uma mulher vulnerável. E os homens são quase todos predadores. Tendo em conta os números que referi no primeiro parágrafo, sinto-me inclinada a achar que isso é verdade.

Resta-me aplaudir a escolha de Manisha Koirala para desempenhar a personagem principal. Um pouco afastada do cinema comercial, Koirala tem uma imagem muito ligada à figura da mulher que, de uma ou outra forma, se liberta. E esta é uma libertação que ocorre em relação aos homens que a oprimem mas, num sentido mais lato, a um entendimento patriarcal da sociedade que insiste em ver a mulher como subalterna. Manisha Koirala interpreta vítimas, sim, mas nunca faz o papel da coitadinha. É uma actriz brilhante.

4 comments:

Ibirá Machado disse...

"No entanto, a palavra de um homem continua a ser mais forte que a de uma mulher em alguns locais." --> Adoro otimismos, mas ainda levarei um tempo pra fazer uma afirmação assim... XY ainda rula 99,9%.

Gostei bastante do texto e fiquei bastante curioso com esse filme. a ver se encontro.

E um dado... fui procurar informações da violência doméstica no Brasil, e descobri que a cada 15 SEGUNDOS uma mulher é espancada por um homem aqui. :(

Linus disse...

Meu Deus, isto é assustador. "Obrigado" barbie-o e Ibirá pelos números que alertam e uma ressalva ao sentido texto, que merece ser lido cada vez que nos esquecermos desses mesmos números.

Rodolfo disse...

excelente texto barbie-o!

barbie-o disse...

Sank you, my brothers!

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