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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Peepli Live


Escrever sobre este filme não é tarefa simples pois aborda um assunto muito delicado: o dos suicídios de milhares de agricultores na Índia.

Este trágico fenómeno começou a chamar a atenção das pessoas nos anos 90, apesar dos relatórios oficiais o negarem inicialmente. Estima-se que entre 2002 e 2006 tenham cometido suicídio cerca de 17.500 agricultores por ano.

Apesar de ainda não existir um estudo oficial, é aceite que a maioria ocorra nos estados do Andhr
a Pradesh, Maharashtra, Karnatak, Kerala e Punjab.

O contexto que leva estes agricultores a tomar esta medida desesperada é complexo mas cinge-se, essencialmente, ao endividamento. O endividamente pela contracção de créditos - cujo dinheiro habitualmente é empregue na aquisição de sementes manipuladas geneticamente - que não são suportáveis dado o baixo rendimento obtido pelos agricultores.

Em Peepli Live, a estreia como realizadora de Anusha Rizvi (numa produção de Aamir Khan), é-nos contada a história de Natha (Omkar Das Manikpuri) um pobre agricultor da aldeia de Peepli, que se esforça por sustentar a família trabalhando a terra com o seu irmão Budhia (Raghubir Yadav).

Verdade seja dita, os dois irmãos não são muito amigos de trabalhar e preferem gastar o pouco dinheiro que conseguem amealhar em cerveja e ganja, e assim dão por eles com o banco a ameaçar expropriá-los da casa e terreno de cultivo caso não paguem os empréstimos devidos.

Natha e o seu irmão Budhia tentam então obter um empréstimo, ou algum benefício, junto do líder político local que de modo jocoso lhes sugere que se matem, obtendo assim uma indemnização estatal para a sua família.

Budhia faz por convencer o irmão de que é pelo melhor que Natha o faça e, enquanto debatem o assunto, um repórter local acaba por ouvir a história e publicá-la no jornal. Quando a notícia é transmitida pelo canal de notícias nacional (em Inglês) torna-se uma loucura, querendo todas as cadeias de televisão e jornalistas cobrir a morte do pobre Natha em directo.

Todo este frenesim dos mídia desperta a atenção das partes políticas envolvidas, e das interessadas em envolver-se, que se revesam em visitas a Natha, sempre com promessas ou prendas.


Um representante do poder vigente acciona um édito e é ofertada a Nathan e à sua família uma bomba de água (Lal Bahadur), mas não os custos da sua instalação.

Ao entregarem a bomba o representante diz: "Agora não te podes suicidar".

Depois vem Pappulal, o líder do partido da oposição, que representa as castas inferiores e os pobres, e oferece uma televisão (a família de Nathal não tem electricidade) e afirma peremptoriamente: "Haverá Guerra! Natha morrerá!".

Um filme que apresenta a política como ela é, complexa, cínica e calculista. O Ministro da Agricultura que diz que uma nação não pode estagnar e deve industrializar-se. O Secretário para a Agricultura que não toma posições sem um parecer do Tribunal porque o suicídio é uma questão legal. O candidato da oposição que torna o suicídio numa questão de casta. E o jornalismo sensacionalista, brutal e escabroso, vazio de conteúdo e espalhafatoso, sempre presente enquanto há uma história sórdida para contar em nome das audiências.

Apesar de tudo, este filme é uma comédia, uma sátira dizendo melhor, e uma muito divertida.

A mãe dos irmãos por exemplo, uma idosa acamada que proporciona momentos hilariantes com o seu constante praguejamento e maledicência. E se a maioria das personagens não são divertidas per se, face às circunstâncias da situação contribuem com momentos cómicos memoráveis ainda que plenos de mordacidade e algum comentário social.

A estrela do filme é sem sombra de dúvida Omkar Das Manikpuri com a sua excelente interpretação de Natha, de parcos diálogos mas rica de olhares, expressões e gestos. Ainda que os restantes actores tenham sido impecáveis no seu papel (Malaika Shenoy foi absolutamente credível no seu papel da repórter Nandita Mallik), este ficou marcou-me pela sua superficial simplicidade.

A edição do filme, intercalando planos de câmara convencionais (e alguns mais artsy) com segmentos de vídeo - como se visto pelas câmaras dos repórteres - é muito bem conseguida imprimindo um ritmo bastante bom a um filme que já contava com uma história muito boa.

E uma sub-história, a de Hori Mahato, o homem que passa o filme a escavar terra não cultivada para a vender.

Um filme a não perder.


4 comments:

Ibirá Machado disse...

Excelente texto, Rodolfo! Esse filme é mesmo a não perder :)

barbie-o disse...

Gostei, embora ache que é influenciado pelo Slumdog Millionaire. A exploração da vida miserável de quem é pobre rende sempre, aliás o próprio filme fala disso, e o cinema mainstream indiano acordou agora para este filão.

De qq forma, não é por isso que deixa de ser pertinente. É bom que a massa urbana indiana aceite que:
1) sim, na Índia há gente mesmo muito pobre
2) o resto do mundo já sabe, não vale a pena tentar fazer de conta que não existe
3) a TV-realidade é mesmo uma m**** que só passa lixo.

Carol disse...

Pra mim, Peepli Live foi um dos melhores filmes de 2010. A mistura de humor e seriedade me atingiu muito mais do que um filme completamente sério conseguiria, até porque a vida não é apenas uma coisa ou a outra. Todas as atuações foram excelentes, mas uma que me marcou muito foi a do ator que fez o repórter mais sensacionalista de todos...não lembro o nome. Lembrei muito de um repórter igualzinho que temos aqui no Brasil, apesar de que essas pragas estão espalhadas por todo o mundo :P

Barbie, se interessar pela pobreza na Índia já saiu de moda, pois acabou a novela e o efeito Slumdog Millionaire.

Engraçado, eu adorava TV aberta quando era pequena. Hoje, já não sei nem mais o que passa. Desisti quando determinados tipos horríveis de programas começaram a ficar famosos e eu não conseguia me identificar com nada daquilo. Uma menina já até morreu aqui por causa de um programa sensacionalista (que não saiu do ar).

Lindo texto! ^^

Rodolfo disse...

Obrigado pelos comentários de todos :)

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