sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Veyil


Seguindo o conselho de outra blogger (que já não me lembro quem é mas tenho pena porque lhe queria agradecer*), tive oportunidade de ver mais um excelente filme tâmil que, neste momento, é indiscutivelmente o meu preferido.

Veyil foi, em 2007, o primeiro filme tâmil exibido em Cannes, fazendo o seu realizador Vasanthabalan muito feliz e angariando uma nova legião de fãs para Pasupathy, o actor principal.

Veyil (algo como 'sol tórrido') começa, como tantos filmes tâmil, com uma cena de chacina. E depois um flashback até à infância dos seus protagonistas, o pequenino Kathir e o seu irmão mais velho, Murugesan.

Filhos de um talhante de uma aldeia pobre (atenção malta vegetariana, este filme tem cabras degoladas com fartura), Kathir e Murugesan são ávidos fãs de cinema, e embora o seu pai se sacrifique para lhes dar a possibilidade de estudar, Murugesan falta às aulas para se infiltrar no cinema a fumar enquanto vibra com os coloridos e animados filmes indianos de antigamente.

MGR - actor e ex-Primeiro Ministro do Tamil Nadu

Não aceitando a sua paixão pela 7ª arte em detrimento das aulas, o pai de Murugesan é avisado por um professor e castiga impiedosamente o filho, despindo-o e deixando-o ao sol abrasador para toda a vizinhança ver. Murugesan não suporta mais os maus-tratos do pai e foge para a cidade, levando consigo as jóias da mãe.

Vinte anos mais tarde. Murugesan (Pasupathy) é agora projecionista numa sala de cinema e mantém a sua paixão pelo venerado actor e político tâmil MGR, adornando as paredes da cabine de projeção com cartazes dos seus ídolos e fazendo projeções privadas para a rapariga por quem está apaixonado, Thangam.
Mas calma. Isto não seria um filme do Sul da Índia sem que acontecesse um banho de sangue entretanto.


A família de Thangam descobre da pior forma que ela arranjou um namorado e decide chacinar - isso mesmo - Murugesan. Thangam suicida-se perante todos ao ver o namorado ser erguido numa forca. Clímax dramático total. Não é possível ver esta cena e não chorar enquanto se grita impropérios contra o sistema de castas e os casamentos arranjados.

Murugesan sobrevive mas entra numa depressão que se agrava com o encerramento do cinema devido à falta de público. Aqui vai uma mensagem para o pessoal da pirataria. Há empregos que dependem do consumo legal de cinema.


Sem nada que o prenda, Murugesan regressa à aldeia natal onde é acolhido efusivamente pelo irmão (Bharath), um publicitário bem sucedido, mas não pelo pai nem pelas irmãs, que nem sequer eram nascidas quando partiu e não o recohecem como irmão.

O pai continua rancoroso - naquela rancor casmurro típico dos pais tiranos do cinema indiano - e não lhe perdoa o facto de ter roubado as jóias da mãe quando ainda era apenas uma criança.

Murugesan sente-se cada vez mais deslocado e infeliz, uma vez que sente ter falhado a nível pessoal e profissional e não se consegue enquadrar na família nem numa profissão.


É então que encontra o seu lugar junto de Pandi (Sriya Reddy), uma mulher divorciada que, devido aos maus-tratos de que era vítima, largou o marido e regressou à aldeia com a filha.
Como o meu coraçãozinho romântico e idealista gostava que esta relação tivesse sido mais explorada no filme! Pandi é linda, forte e compreensiva e o realizador introduziu-a na narrativa certamente para dizer que existe uma alternativa à passividade nas relações conjugais que resultam mal e que sem dúvida uma mulher independente e com experiência merece e tem o direito de viver novas relações.
Não nos esqueçamos da tradição tâmil de veicular no filmes a mensagem de que os casamentos devem ter por base o amor e de que não há nada de errado num segundo casamento.

Como eu dizia, esta relação não foi focada tanto quanto poderia ter sido (deixemos estes assuntos para os filmes bengali, pensa ela) mas a dor e a frustração de Murugesan foram-no.
Quantos de nós não têm um amigo que, tendo terminado uma relação ou perdido o emprego, acabam por se afundar, deixando de acreditar no seu próprio valor? Reconheci vários de nós em Murugesan...

Tirando as cenas de luta sobre-humanas em que um tipo acaba de ser esfaqueado e continua a pontapear os oponentes (qualquer dia o Tarantino vira-se para o cinema indiano para obter "inspiração"), Veyil é um filme emocional e humano, e está filmado de forma lindíssima, com planos bonitos e uma imagem limpa.
É adorável a forma como as referências ao cinema antigo são introduzidas no filme - com canções e sobreposições de imagens -, dando-nos aquele aconchego nostálgico de Om Shanti Om, outra homenagem ao cinema indiano feita pela própria indústria.

Notem, por isso, o penteado à galã de Pasupathy na primeira parte do filme. E vejam o filme, se puderem.

Da minha parte, como consegui fazer um texto inteiro sem falar da personagem de Bharath (o que foi francamente injusto), deixo aqui um vídeo só com ele.



* Actualização: Já sei quem é e já agradeci!

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