domingo, 4 de setembro de 2011

Khuda Kay Liye


Khuda Kay Liye (Em Nome de Deus) marca uma viragem no cinema paquistanês. Lançado em 2007, é considerado o primeiro filme comercial de qualidade produzido no Paquistão em muitos anos.

O cinema paquistanês teve uma época dourada, chamemos-lhe assim, que durou sensivelmente até aos anos 60.  Até então, o cinema paquistanês era bastante similar ao indiano - aliás, a divisão dos dois países só se deu em 1947, e por essa altura já Lahore se tinha estabelecido como centro produtor de cinema. Após a separação, muitos dos artistas formados e popularizados no cinema indiano mudaram-se para o Paquistão e aí continuaram as suas carreiras.
Mas com o tempo, a censura e a falta de meios técnicos (até há bem pouco tempo não havia no Paquistão nenhuma escola para técnicos de audiovisuais) o cinema paquistanês degradou-se, tornando-se, na maioria dos casos, uma cópia kitsch e de má qualidade do cinema Bollywood. O facto de o mercado paquistanês estar inundado de pirataria de filmes indianos e de o governo não facilitar o intercâmbio de artistas entre os dois países também ajudou à decadência do cinema de Lahore, ou como é popularmente conhecido, Lollywood.
Se costumam ler o Grand Masala, terão notado que já falámos de cinema paquistanês, como por exemplo de Khamosh Pani - Águas Silenciosas ou Zibahkhana - Terra de Zombies. Sendo ambos filmes interessantes, nenhum deles é Lollywood puro. O primeiro é uma co-produção com países europeus e o segundo foi feito por cinéfelos e até agora só tem sido exibido em circuitos cinéfilos. Pelo que consegui apurar ainda não foi exibido no Paquistão. E é pena.


E é por isso que Khuda Kay Liye, que não é um filme perfeito, foi tão bem acolhido por aqueles que ainda acreditam num renascimento do cinema paquistanês.

Filme de estreia do produtor e realizador televisivo Shoaib Mansoor, KKL é, acima de tudo, entretenimento de qualidade. Por um lado, cumpre eficazmente a sua função de nos prender ao ecrã na expectativa de saber o que acontece depois. Por outro, lida com um assunto particularmente sensível e pertinente no Paquistão, a religião. Não a religião em si, mas a visão distorcida que uns e outros têm daquela que é, idealmente, uma religião de amor e de inclusão.

No Paquistão acompanhamos a história dos irmãos Mansoor (Shaan) e Sarmad (Fawad Afzal Khan), que fazem parte de uma família da classe média e têm uma carreira na música rock (a título de curiosidade, Fawad Afzal Khan tem mesmo uma carreira como guitarrista e cantor rock).
Enquanto Mansoor planeia continuar a estudar música nos EUA, Sarmad começa a acompanhar um mulá com uma visão particularmente castradora e politizada do Islão.
Abrindo os olhos de Sarmad sobre alguns dos verdadeiros motivos por trás da inimizade entre certos países ocidentais e parte do mundo muçulmano, o mulá convence também o impressionável Sarmad de uma suposta rigidez corânica em que a música e a dança são coisas proibidas e em que os homens têm obrigatoriamente andar de barba e as mulheres de cara tapada.

Enquanto no Paquistão Sarmad acolhe um novo estilo de vida, no Reino Unido o seu tio decide que é altura de a sua filha Mary (Iman Ali), criada do modo britânico, regressar às origens. Apesar de ele próprio viver com uma companheira inglesa, quando Mary inicia uma relação com um rapaz inglês o pai informa-a de que vão fazer uma pequena viagem ao Paquistão. Na sua inocência, Mary acompanha o pai e o primo Sarmad até ao Afeganistão onde o destino que a espera é um casamento forçado e uma vida de reclusão numa aldeia semi-deserta. Sarmad aceita casar com a prima a conselho do mulá, que o convence da nobre tarefa de impedir que uma muçulmana e a sua (potencial) prole se afastem do caminho do Islão. Também a conselho do mulá, Sarmad engravida Mary à força, de forma a assegurar que esta não tenta fugir por amor ao filho.

Paralelamente, nos EUA Mansoor começa a namorar com uma americana, com quem eventualmente acaba por casar. Com os eventos de 11 de Setembro de 2001, Mansoor é preso (o filme não explica bem porquê) e torturado. A sua mulher, outrora alheia às questões geo-políticas que envolvem o Paquistão e o mundo muçulmano, inicia uma batalha para recuperar o marido, organizando manifestações pelos direitos humanos e contra o racismo.


KKL seria um filme melhor se a história de Mansoor fosse mais explorada ou até se não fosse explorada de todo. O modo como é tratada a questão do racial profiling e das prisões ilegais feitas pelo governo americano é algo superficial e provavelmente mereceria um filme à parte.

Por outro lado, achei a actriz Iman Ali excepcional. Foi nas cenas relativas ao seu cativeiro e às suas tentativas de fuga desesperadas que o realizador mais brilhou, e Ali dominou completamente todas as cenas em que entrou. A cena em que tenta fugir da aldeia vestindo uma burca e evitando todos os homens que se cruzam no seu caminho é completamente asfixiante e é seguramente a mais forte do filme, tanto a nível visual como narrativo.

A parte final do filme também peca por dar demasiada exposição à personagem do aclamado actor indiano Naseeruddin Shah, que interpreta um mulá chamado para repor a verdade dos factos sobre o Islão e mostrar o quão tendenciosa é a leitura que os ortodoxos fazem da religião.

Além da já referida actuação de Iman Ali, outro ponto muito positivo do filme é a sua banda-sonora. Perfeitamente adequada à narrativa, ora discreta ora intensa, Khuda Kay Liye tem uma banda-sonora muito boa e invulgar para o cinema paquistanês.

O balanço final de Khuda Kay Liye é, no geral, bastante bom. Quero ver mais filmes destes e pelos vistos estou com sorte, uma vez que o seu sucessor, Bol, foi agora lançado também na Índia, pelo que antevejo boas probabilidades de vir a apanhar uma cópia (digo, edição) com legendas em Inglês.

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