sábado, 12 de novembro de 2011

Dev.D

É tão triste quando os nossos preconceitos nos afastam de coisas de que, no fundo, sabemos que vamos gostar. Dev.D é exemplificativo de algo que me assusta muito. Mas que eu sei que é bom.
O Ibirá chama-lhe o novo cinema indiano e de facto é isso mesmo. É um cruzamento bestial entre o arrojo do cinema paralelo que sempre existiu na Índia e o realismo in your face do cinema contemporâneo internacional.
"Mas e a fantasia?" - temia eu. Vivo num medo constante que a necessidade de actualização e a conquista de novos mercados acabem por roubar ao cinema indiano aquilo que tem de único e encantador, a fantasia. A parte em que surge a música e toda a gente dança e canta e o mundo já não parece um sítio tão mau.

Depois de meses de resistência, temendo que fosse estragar a imagem perfeita e cristalizada do Devdas que já conhecia e amava, acabei por ver este Dev.D. E adorei cada frame.
O realizador Anurag Kashyap pegou numa história clássica e imediatamente reconhecível em toda a Índia e trouxe-a até hoje. Todas as imperfeições e desadequamentos que saltam à vista do espectador moderno que assiste a um história com quase cem anos ficam para trás.


O Dev de Kashyap é perfeitamente humano, nós conhecemo-lo e sabemos porque é que se sente frustrado com o amor e como é inconsequente e como não consegue sair do buraco em que se meteu.
Esta Paro é cheia de esperanças, entrega-se e é rejeitada. Como não sentir empatia?
E Dev.D traz-nos a melhor Chanda de sempre, tenho a certeza. Uma jovem do liceu que, como tantas outras, se deixa levar pela conversa de um namorado sabido que promete não divulgar as filmagens dos seus momentos a sós.


E hoje, tal como ontem, as mulheres têm muito mais a perder do que os homens quando a sua honra é questionada. Paro aceita viver o resto da vida num casamento sem amor e Chanda é alvo dos olhares dos colegas, ostracizada por aqueles que a amavam e acaba por ir parar às ruas.


Anurag Kashyap acertou em cheio quando escolheu para os papéis principais Abhay Deol (que aparentemente foi quem teve a ideia do filme), Mahie Gill (a actriz de olhos lindos e grandes que nos dão vontade de chorar) e Kalki Koechlin (a franco-indiana com um nome perfeito que conseguiu criar uma Chandramukhi ainda mais trágica e encantadora do que eu conseguia imaginar).

E acertou também ao conseguir reunir uma banda-sonora tão eclética quanto apropriada. Dev.D tem uma música do caraças, que invade o filme constantemente e que se cola às personagens e aos cenários como se sempre lá tivesse estado.

Confesso que antes de ver este filme achava que a Índia era um país maioritariamente miserável e mal-cheiroso e que o cinema era a fantasia escapista total. Pós-Dev.D penso: "A Índia está tão lá!"

Nesta época de crise, desespero e necessidade de coisas bonitas, saltem até à loja ou torrent mais próxima e vejam este filme como se não houvesse amanhã. Senão será uma 'tragedy, tragedy!'

5 comments:

Carol disse...

Estou absurda e intensamente orgulhosa de você. Venceu seus medos!

Bem-vinda ao clube dos apaixonados por Dev.D! :)

bárbara disse...

Obrigada, Carolzinha! ;_;
Custou muito mas valeu a pena.

Ibirá Machado disse...

UAU, que texto mais lindo e apaixonado. Obrigado por isso, Barbs. Mas já digo que será difícil Anurag criar algo tão apaixonante quanto Dev.D é pra nós. Talvez seu filme seguinte, Gulaal, possa ser colocado num patamar de extrema admiração e respeito, com magias em locais distintos, mas lá. To feliz! :)

Carol disse...

A gente tem que discutir mais os filmes, sabiam? Ando tendo umas boas horinhas de diversão fazendo isso com Pedrinho e Isoleta. É pra dissecar mesmo!

Barb ji, diga-me: qual foi sua cena favorita do filme, o que você destaca do personagem principal em relação às outras filmagens e o que achou da trilha?

bárbara disse...

Ai! Eu tenho pensado nisso mas não me consigo lembrar da minha cena favorita. Ok, ok - aquela em que o dev diz à paro que ela nem sequer é bonita e logo depois ela surge toda arrumada e cheia de jóias *_*

E este é O Dev, o verdadeiro <3

(A trilha sonora é a única coisa que tenho no iPod há vários dias...)

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