domingo, 12 de fevereiro de 2012

Bol


Como acontece com muitos fãs de cinema indiano, o cinema comercial de Bollywood deixou de me entusiasmar tanto quanto antes e comecei a procurar alternativas nos cinemas marginais, digamos assim, das grandes produções de Mumbai.
Há quem, nessa jornada, encontre o vigor do cinema tâmil. Há quem se apaixone pelo lirismo bengali. Há quem mergulhe na intelectualidade do cinema paralelo. E eu decidi partir à decoberta do cinema do Paquistão.
Tendo a indústria de cinema paquistanesa sucumbido à censura, à pirataria de cinema indiano e à falta de meios e de mão de obra qualificada, poderia haver verdade no ressurgimento da glória do cinema paquistanês apregoado nos blogs sobre Lollywood?
Foi o que me propus confirmar quando descobri que estava para breve o lançamento de Bol, um filme dirigido por um realizador de televisão que tinha num dos papéis principais Atif Aslam, cantor já com carreira sólida em bandas-sonoras de cinema indiano e que agora se estreava como actor num filme do seu país-natal.


E o que descobri ao ver Bol foi que estava perante um dos melhores e mais arrojados filmes a sair do subcontinente indiano na última década.

Uma vez que ainda faltavam uns meses para o lançamento de Bol, decidi preparar-me vendo o filme de estreia do seu realizador, Khuda Kay Lye, sobre o qual já escrevemos aqui no blog. Ao passo que Khuda Kay Lye tinha ainda algumas arestas por limar, Bol é impecável na realização, no desempenho dos actores (na sua maioria, estreantes) e na audácia com que encara de frente problemas específicos da região em que foi produzido mas que não são assim tão distantes da nossa realidade no Ocidente.

Narrado em flashback por Zainab, a filha mais velha de um homem religioso e conservador, Bol acompanha uma família paquistanesa onde há sete irmãs e onde o pai anseia por um filho homem, não dando importância ao facto de o orçamento familiar ficar cada vez mais curto à medida que vão nascendo mais crianças, nem se importando com o desgaste físico da sua mulher que, numa idade em que já devia estar a pensar nos netinhos que haviam de vir, continua a produzir bebés porque "essa é a vontade de Deus". Ou pelo menos é o que acha o marido.


Isoladas do mundo - porque não vão à escola por serem raparigas - o único elo de Zainab e das irmãs ao exterior são os seus vizinhos xiitas, cujos filhos (tanto o rapaz como a rapariga) estudam na faculdade e lhes dão a conhecer um pouquinho do mundo contemporâneo através da música, da televisão e de fugas momentâneas para o exterior. Uma aliança matrimonial entre as duas famílias está fora de questão para o pai de Zainab, apesar de uma das filhas namorar com o vizinho.

Quando finalmente nasce um filho rapaz, o pai de Zainab acredita que Deus o está a pôr à prova pois, como milhares de pessoas pelo mundo fora, a criança é hermafrodita. E embora Saifi se vista como um rapaz e só pense em brincar e desenhar, como qualquer outra criança, o pai não lhe perdoa o facto de não ser 100% rapaz e esconde-o em casa, para que ninguém saiba que ele existe.

Do alto do seu pedestal moral, o pai de Zainab acaba por se ver envolvido numa situação em que uma mentira só pode ser protegida com outra mentira e acaba por se ver envolvido com as pessoas que mais despreza: o chulo Mustafa e o seu séquito de prostitutas com filhos de pais incógnitos, xiitas que vivem e trabalham num bordel na zona da luz vermelha que dormem de dia, dançam de noite e - esta falou-me directamente ao coração - se referem aos seus cães como parte da família.


Com uma estrutura moral tão distinta da sua, as pessoas do bordel acabam por se revelar mais honestas, mais frontais do que o religioso Hakim e a sua dualidade de critérios que, cometendo um pecado atrás do outro, se continua a ver como um homem honrado e temente a Deus.

Ao longo do filme, o realizador Shoaib Mansoor trata com muita beleza e sensibilidade assuntos que continuam a ser tabu para muita gente, como a repressão das mulheres nas sociedades patriarcais, a identidade de género, a homossexualidade e a religião, tratando todas as suas personagens com o carinho e a humanidade que estas merecem.

E se Bol parece ser um panfleto em prol de uma sociedade mais tolerante, mais progressiva, isenta de corrupção e de sexismo,  a mensagem que Mansoor escolheu colocar sob os holofotes é claramente a do planeamento familiar. A mesma frase ecoa ao longo do filme proferida por Zainab: é crime continuar a colocar filhos no mundo se não se tem como os alimentar.
Deus não é desculpa, a tradição não é desculpa, nada é desculpa. É irresponsabilidade, simplesmente.
Numa altura em que nações se debatem com a escassez de recursos, com o excesso de população e em que mais dia menos dia não vamos ter mais nada para comer, é chocante haver quem ainda ache que, só porque nasceu com a capacidade reprodutiva, a deve usar constantemente como se não houvesse amanhã.
Nota mental: mandar uma cópia deste filme tão esclarecedor a uma certa associação portuguesa de pessoas que continuam a achar que o mundo ainda é como antigamente e que ter muitos filhos é um investimento porque os podemos pôr todos a trabalhar no campo e vai sempre haver que chegue para todos. Não, não vai.

2 comments:

Carol disse...

"assuntos que continuam a ser tabu para muita gente, como a repressão das mulheres nas sociedades patriarcais (...)"

Preciso ver esse filme! Parece um daqueles perturbadores que me fazem chorar quando estou escrevendo postagem...

*Arth e Junoon feelings*

bárbara disse...

Amiga, este é um *desses* filmes! Chorei muito.

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